Se o vosso sonho é entrar numa máquina do tempo, viajar até aos anos 70 e ser transportado até um concerto dos Led Zeppelin, Black Sabbath ou Blue Cheer (facto, a capa do álbum faz lembrar a de Outside Inside dos mesmos), lamento mas a ciência ainda não nos permitiu tal feito. Porém o segundo álbum dos Graveyard pode proporcionar-nos uma experiência parecida. E é na base do blues, do rock psicadélico e também do stoner que a banda construiu o seu estilo intenso que agrada tanto a fãs do metal como do indie.
A banda que surgiu dos extintos Norrsken, formação que deu origem também aos Witchcraft, põe a Suécia no mapa do hard-rock feito à moda antiga, e traz-nos um álbum onde a alma e a paixão escorrem de cada acorde. Se já com o primeiro e homónimo álbum os Graveyard o tinham conseguido, Hisingen Blues lançado em Abril deste ano é uma gloriosa confirmação desse mesmo talento e fervor.
Mas façamos uma breve análise ao álbum, Ain’t Fit to Live Here isoladamente não é das melhores músicas da banda sueca, mas dá-nos logo uma injecção de energia que nos prepara para o que vem a seguir e nos deixa logo à partida viciados no som dos Graveyard e na incrível voz do vocalista Joakim Nilsson (e aqui vos confirmo que ao vivo não desilude um segundo, antes pelo contrário).
O tema que se segue em Hisingen Blues é No Good, Mr Holden, confesso que no meu caso foi a faixa que mais me cativou da primeira vez que ouvi o álbum. Com duração de quase cinco minutos esta música começa com a inversão do refrão, não sendo por isso perceptível essa parte da letra, porém à medida que a canção vai avançando o resultado não podia ser melhor, pois quando chegamos ao refrão este já nos é familiar. Podendo ser considerado uma balada este é um dos temas mais intensos do álbum e uma das suas particularidades, aliás uma das características da banda mesmo, é ser bastante visual como podemos ver em alguns versos, como estes por exemplo: (Just give me your mind your head and your soul/ Give me your sun and show me your moon).
Hisingen Blues, a faixa que dá nome ao álbum, ocupa o terceiro lugar no alinhamento deste. Inteligentemente foi escolhida como single de apresentação do álbum, sendo a única música com videoclip oficial, e define completamente o estilo da banda sueca. Foi disponibilizada no last.fm para download gratuito, porém no site o número de vezes que foi ouvida não é assim tão significativamente superior a outras do disco, o que prova que pelo menos nesta amostra quem ouviu este tema, ouviu muito provavelmente o álbum inteiro de seguida. Hisingen é também o nome de uma ilha na Suécia, provavelmente a terra natal dos Graveyard, ou um local marcante na sua carreira. A letra desta música acaba por ser um pouco épica, falando de demónios amigos e dragões, (Going by the riot/call the rest a stone/leading to the isle where i dont wanna go) e de toda uma aventura mítica passada nesta ilha, num hino tecido sobre o blues.
Uncomfortably Numb remete-nos imediatamente para o célebre tema dos Pink Floyd. Ter-se-à tratado de uma homenagem? Ambas têm características em comum, a capacidade de nos envolver e dos nos transportar para outra realidade, porém no tema dos Graveyard isto não é feito exactamente com o nosso consentimento, mas sim com uma certa resignação. A letra centra-se exactamente no tema que os Led Zeppelin mais abordavam, o amor. E claro que aqui ele é tratado na sua forma mais dolorosa, mas ao contrário das letras dos seus antecessores britânicos, em que a culpa era toda atribuída à figura feminina, aqui vê contada a história de uma relação condenada ao falhanço desde o início, como podemos perceber pelo início do refrão: (I’ve been leaving you since the day we met/ And it feels like you have too). É sem dúvida das músicas mais marcantes do álbum.
Buying Truth (Tack & Förlåt) é o quinto tema de Hisingen Blues, (tack e förlåt, palavras suecas que em português significam obrigado e desculpa) e é o tema que nos traz de novo mais um grande golpe de energia. Leva-nos também para outro assunto a nível de letras, a crítica aos valores morais, algo muito marcado também no álbum anterior. Aliás a crítica social também aparece no tema Hisingen Blues, mas os Graveyard tem uma forma muito peculiar de caracterizar o mundo à sua volta, como mais à frente disso trataremos. Longing é a faixa que se segue, embora seja só instrumental é considerada por muitos como a melhor música do álbum. Longing leva-nos para ambientes longínquos e quase sempre cinematográficos, a referência a The Good, the Bad and the Ugly é quase imediata, e normalmente seguida por uma alusão a Kill Bill. Estamos claramente perante um tema perfeito para a banda sonora de um western.
Ungrateful Are the Dead retoma um pouco a essência de Buying Truth, ambas nos transmitem uma forte vibração blues e nos soam um pouco a Blue Cheer. Quem diria que ainda assistiríamos a isso em pleno século XXI? E assim seguimos para RSS que continua a não nos desiludir nesta onda e não nos deixa descansar deste groove incansável, e nos prepara para o grande final – The Siren.
Quem conhece o primeiro e homónimo álbum dos Graveyard, sabe que The Siren finaliza Hisingen Blues, tal como Satan’s Finest finaliza o primeiro, e enquanto a última tece uma forte crítica social falando das principais tentações a que o homem cede e de como o demónio nos tenta, na primeira esse demónio também está lá (como não deixa de estar no tema Hisingen Blues, se bem que com uma conotação completamente diferente). Tonight a demon came into my head and tried to choke me in my sleep é o refrão que não nos deixa indiferente e nos vai ficar na cabeça por horas e horas a fio. Mais uma vez para os Graveyard o amor é a salvação e algo que nos pode salvar da maldição que nos atormenta: In the darkest hour, my woman brought me back to life/. É sem dúvida o melhor clímax que os Graveyard poderiam ter dado como desfecho pela intensidade, pela junção perfeita do blues e do stoner, e pela história e sensação de despertar de um pesadelo que realmente nos consegue transmitir.
Sentimentos que nos ficam não só depois de ouvir The Siren, mas depois de ouvir todo o álbum. Sentimentos e frases que Hisingen Blues inspiram em quem os ouve, pois meus caros amigos o título desta crítica não é da minha autoria, é sim uma frase que vi num comentário no youtube feito por um utilizador no vídeo desta mesma última faixa.
Mas Hisingen Blues não ficou por aqui. Pouco tempo depois foi lançada outra versão com mais três temas de bónus. Dois destes não eram desconhecidos, tratavam-se de versões ao vivo de duas faixas do álbum anterior: Blue Soul e As The Years Pass By, The Hours Bend, mas os Graveyard decidiram incluir uma surpresa para os seus fãs, um novo tema – Cooking Brew. Não desiludindo no instrumental e vigor, o que mais ressalto nesta música é o facto de ser extremamente visual: Blue turns red, While the green turns brown, I walk away from my past/… When blue turns black and gray no longer turns you on…/; de facto toda esta miscelânea de cores reforça ainda mais o carácter psicadélico da banda e metafórico das suas letras.
Mas como soa o Hisingen Blues ao vivo?
Se ficaram com vontade de conhecer os Graveyard ou já eram fãs, podem encher já neste momento as vossas almas de arrependimento se os perderam ao vivo este verão no Milhões de Festa, em Barcelos. No dia 22 de Julho, mesmo não sendo os cabeças de cartaz desse dia, a banda sueca atraiu até à cidade dos galos centenas de fãs do rock old school, e mais uma vez embora me possa estar a tornar repetitiva, do blues, do stoner e do psicadélico, que tinham nestes a principal atracção da noite. As t-shirts e emblemas dos Led Zeppelin, Black Sabbath e Pink Floyd identificavam quem tinha vindo para ver os Graveyard e certamente identificaram no final quem ficou completamente estarrecido pela alma e paixão que os quatro elementos destilaram naquele pequeno palco à beira do Cávado. Embora tímidos ao entrar no palco, mal as guitarras fizeram soar os primeiros acordes de No Good, Mr Holden não mais se deixou de sentir um calor e energia reconfortante e um sentimento comum partilhado por todos que amam este tipo de música e que o achavam este feeling já enterrado há muito no tempo. Penso que não estou errada ao admitir que foi um dos melhores concertos deste verão.
31 novembro 2011
(Podem ler outra versão mais reduzida desta crítica aqui.)

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